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BRASIL, Sul, FLORIANOPOLIS, COQUEIROS, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Livros
 

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Manhã

Antes de ontem vc era o primeiro tímido raio de sol a transpor o horizonte... Nos primeiros instantes deste Dia, vc era o frescor dos ventos, o brilho do orvalho... Seus olhos e coração singelos a pulsação da vida... Ontem vc era descoberta de potencialidades, experimentação, primeiros passos na Alvorada... Hoje vc é Manhã Luminosa, crescendo em força, sinalizando um futuro radiante... Não mais que 15 minutos deste lindo Dia, têm sido estes quinze anos de caminhar ao seu lado e de Vc conosco... tantos e tão belos caminhos ainda à frente... Que a Felicidade se irradie por toda a sua Vida! Feliz aniversário, meu filho Pietro!



Escrito por Lárimer Daniel às 10h53
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Coisas dessa época...

Faz quase dois anos que tenho sido convidado por um amigo para uma festa... Ele me diz que é amigo do dono de um bonde e que esse bonde vai passar na minha rua e vai me levar para a festa... Tenho dito pra esse amigo que não me importam, nem o bonde nem a festa... Mas ele insistiu tanto que até acho que fiquei um pouco curioso... Ontem esse amigo lligou e me avisou que passaria na minha rua... Hoje, na hora marcada lá estava eu... Meu amigo passou dirigindo o bonde... muito simpático, muito sorridente, acenou energicamente... mas o bonde estava cheio, não tinha lugar pra mim e ele não parou... E eu fiquei lá... com uma nostalgia da festa que não pedi pra ir e do bonde que não me importava conhecer... Feliz 2012, amigo!



Escrito por Lárimer Daniel às 21h53
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Mais um ano...

Faz quase um ano desde que publiquei a crônica sobre voar...

Neste meio tempo voei outras tantas vezes, incluindo um vôo maluco entre Montevidéo e Buenos Aires, sob uma tempestade em estilo montanha russa, de tanta e tão forte turbulência... Perdi o medo de voar assim como vou perdendo o medo de outras coisas...

Turbulências na vida vêm e vão... Há momentos em que nos sentimos decolando... Em outros é preciso aterrizar... Pouso forçado? Esperemos que não...

Observo que à medida que avanço nos anos vou me distanciando cada vez mais de certos enganos... Política, a filosofia acadêmica e seu auto imposto emparedamento pela ideologia e por uma relés e mal disfarçada prática partidária... Amizade, coisa que não desfruto porque não encontro pessoas desinteressadas de alguma utilidade imediata para as palavras e os gestos...

Sou mais jovem que a maioria das pessoas de pouca idade que conheço... Observo a superficialidade e formulas retóricas mal apreendidas e repetidas mecanicamente... As pessoas não estão nas palavras que pronunciam... Novidade nisto que estou dizendo, para uma pessoa da minha idade? Nenhuma... Pequenas turbulências... atitude de cruzeiro... quem sabe?

Não me desiludi do amor... nem do caminho... Continuo ansioso para a próxima curva... Talvez não seja uma curva radical... mas ainda há curvas e algo além delas... Mais do mesmo? Talvez... mas também pode haver algo nôvo... Vou literalmente pegar minha bicicleta e ir até lá... Depois, talvez daqui a outro ano, eu volte aqui e conte para ninguém... porque ninguém é um leitor assíduo do meu blog...



Escrito por Lárimer Daniel às 08h56
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Vôos e Viagens Parte 1

Meu filho, então com três anos em sua segunda viagem de avião...

Voar é uma experiência emocionalmente complexa...

O avião de passageiros é um lugar charmoso ... é dinâmico, encurta distâncias e tempos... Alta tecnologia e a atenção solícita dos Aeronautas... O conforto é discutível... As poltronas, que até meados da década de 80 reclinavam, hoje se movem apenas alguns milímetros... Também estão ficando mais duras e estreitas... e a distância entre elas, bem... é melhor não colocar adjetivos...

O avião é também claustrofóbico e aterrorizante... Ali sentados, na poltrona do meio de uma fileira qualquer, longe das janelas, dos banheiros de bordo e do corredor, se o vôo é calmo tem-se uma sensação de total impotência e tédio... Apenas estamos ali e só o que podemos fazer é tentar afastar preocupações e torcer para que tudo esteja funcionando corretamente... Quando ao avião sacode, açoitado por ventos e turbulência, somos tomados de um pavor surdo, contido, controlado, reprimido... E assim devemos ficar, aparentemente impassíveis e calmos... O avião sacode e a moça ao lado mantém-se concentrada na leitura de um exemplar de Goethe... Atrás duas pessoas mantêm um diálogo interminável sobre algum assunto... À frente uma criança chora... A Aeromoça nos pergunta se vamos aceitar o "lanche"... O medo batendo nas têmporas, nossa vontade é gritar para que todos façam silêncio, que a situação é grave, que o avião “balança e faz ruídos cada vez mais estranhos”.... Ao contrário, fingimos a maior tranqüilidade, dizemos apenas que não... não iremos usufruir a lauta refeição oferecida... "Só um refrigerante, por favor..." E seguimos encolhidos, assustados, em busca de indícios de normalidade... "Se os Comissários estão sorrindo... então está tudo bem..." Mas... "Ih! O Comandante ascendeu a luz de chamada na porta da cabine de comando... Pode não ser um bom sinal..." "Nossa! Uma Comissária correu demais para atender o Comandante... Catástrofe iminente!" "A Comissária saiu logo sorrindo da cabine... Ufa! Talvez seja só um pouso forçado, afinal..."

Grande é o esforço de "pilotar" sensitivamente o avião, com os olhos, com os ouvidos, com o pensamento... Tentar calcular a rota e o exato momento em que deve se iniciar a descida... Perguntar-se o porquê daquela curva acentuada à esquerda... Por que está acelerando os motores? Nossa, parece que o ângulo de ataque está muito acentuado... Enxergar algo fora da aeronave torna-se questão de sobrevivência... É preciso ver que não perdemos altitude... que a trajetória é suave... que o tempo está bom...

Depois de anos confiando alegremente nas virtudes da engenharia aeronáutica... Depois de anos sendo o passageiro chato que pede para trocar de lugar para ficar na janela... Depois de anos apreciando as paisagens que o vôo proporciona... Bastou uma despressurização da cabine para que voar tenha se tornado uma tortura... Apesar da crescente admiração pelos Aeronautas, apesar do meu interesse pelas notícias sobre os novos aviões, sobre as novas tecnologias... O fato é que um medo irracional e incontrolável toma conta de mim, todas as vezes em que tenho que voar... Pior: depois do incidente que me levou a ter medo, tive que voar mais e mais...

Controlado e discreto, tenho a ilusão de que ninguém nota o meu medo... Quando consigo um lugar na janela é bem melhor... Fica mais fácil "pílotar" e me certificar a cada 15 segundos de que não há uma tragédia em curso... Observo as paisagens, antecipo o tempo necessário a penetrar nas nuvens... Nas aproximações com céu encoberto, olho fixamente para aquela "escuridão" branca, ansiando para ver o chão abaixo e constatar que estamos em altura segura para chegar ao aeroporto...

A voz do Comandante, via de regra serena e segura, ajuda a acalmar... Ele informa o tempo de vôo estimado e a hora prevista para o pouso... Ótimo, digo eu, agora passo a "controlar" o avião através do meu relógio... Engano-me para não olhar as horas, para não ter a sensação de que o tempo não está passando... Fixo metas: Só olharei no relógio quando o lanche for servido... Acompanho a faina dos Comissários... Abre garrafa, pedras de gêlo no copinho de plástico e o mais irritante dos sons a que se pode expor um ser humano: O som de refrigerante derramado em copo de plástico... A repetição enfadonha da mesma pergunta: "O que vai beber, senhor?"... Alguns passageiros atiram-se sobre o lanche... Alguns, chatos pra caralho, pedem para trocar o lanche! Mas, como... penso eu... é lanche de avião... é tudo a mesma coisa... por que ela quer trocar?!

Às vezes, pra relaxar e ajudar o tempo passar, vou ao banheiro da aeronave... Caminho lentamente, cuidadoso para não esbarrar nos passageiros e não atrapalhar os Comissários... Entro no banheiro, por vezes sem nenhuma razão fisiológica para fazê-lo... Apenas me olho no espelho, molho as mãos e me dirijo palavras de apoio moral do tipo “já passamos da metade... está perto, agora...” Décadas voando e foram inúmeras as vezes em que tentei ver alguma coisa do lado de fora da aeronave através da minúscula abertura circular que sempre há nos banheiros de bordo... Nunca é possível ver nada e por vezes estive convencido de que aquela abertura é um “pega-trouxa” e que o que existe ali, de fato, é uma câmara com monitores na cabine de comando e nas áreas dos Comissários... Certamente é por isso que às vezes os Comissários dão sonoras gargalhadas...

De volta à minha poltrona, reassumo o “comando”... Se é de noite, tento ver pontos luminosos que sirvam de referência... Escuto atentamente os ruídos provenientes das asas... Flaps, freio aerodinâmico... o som dos trens de pouso baixando e travando... Nos aviões mais antigos, um “claque” mais alto indica o travamento... Nos mais novos às vezes não dá pra saber...”só quando tocarmos a pista...”.

Num vôo recente, já próximos do destino, um comportamento estranho denunciou que algo havia de errado... O avião acelerava, ganhava altura novamente e andava em círculos... Acostumado às aproximações a São Paulo, cidade com um dos mais intensos tráfegos aéreos do mundo, as manobras de espera me são velhas conhecidas... Em instantes, porém, um aviso confuso do comandante instaurou uma atmosfera de real preocupação e sensação de perigo...

- Senhoras e senhores, devido a um problema que ocorreu no nosso vôo estamos tentando alterar nossa rota para pousar em Guarulhos...

Frase cheia de gravíssimos erros de psicologia de passageiro... Num vôo ninguém deve dizer que vai “tentar” nada... Outra regra de ouro: Nunca se deve falar em “problema”...

Silêncio pesado, conversas congeladas, preocupação... As dúvidas não confessas de todos: “Qual será a gravidade do “problema” de que falou o Comandante?” “Será que estamos queimando combustível para fazer um pouso forçado?” E o que ninguém ousaria verbalizar: “Será que vamos cair?”

Depois de tormentosa espera resolvo verbalizar algumas perguntas... chamo a Aeromoça:

- Querida, o Comandante falou que estamos com problemas...

- Não senhor... – responde ela – é só que o campo fechou em Congonhas...

- Não foi o que disse o Comandante... Ele disse que estamos com problema... Vc poderia, por favor, pedir para que ele se dirija novamente aos passageiros?

Constato a enorme repercussão que minha entrevista com a Aeromoça teve a bordo... Recebo manifestações de incentivo da proa à cauda... Até um “é isso aí!” chego a ouvir... Na minha imaginação também ouço “Apoiado!” e “Bravo!” Se me candidatar a Senador aqui dentro acho que serei eleito...

Passam-se mais alguns intermináveis minutos e o Comandante retorna aos alto-falantes...

- Senhoras e senhores, estamos nos encaminhando para o Aeroporto de Confins, em Minas Gerais... Temos um pequeno problema no freio aerodinâmico e estamos mudando nosso destino...

Ganhamos altura novamente, velocidade e enfrentamos corajosos outros 50 minutos de vôo... Como só o que importa realmente é pousar, ninguém reclama, todos recolhidos em silêncio circunspecto... O pouso em Confins é sereno... se o Comandante não tivesse avisado nem teríamos notado problema nenhum... Pés no chão o humor retorna: “Vamos comer um tutu de feijão, pelo menos...”

O Aeroporto de Confins é grande, é nos confins e não tem tutu de feijão pra comer... Paciência, ficamos no pão-de-queijo, pelo menos... Mais alguns minutos e embarcamos novamente, agora em outra aeronave, de outra companhia e seguimos para São Paulo... Felicidade, vôo na janela, em céu de brigadeiro... Lindas paisagens entre Minas Gerais e São Paulo... Passamos por uma região de muitas águas com rios e lagos, o reflexo do sol entre dourado e prata... Uma vez em São Paulo, muitos telefonemas e ajustes de agenda... temos uma história pra contar...



Escrito por Lárimer Daniel às 14h01
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Vôos e Viagens Parte 2

 

Às vezes, para evitar o desconforto do meu medo de avião, faço o percurso de Florianópolis a São Paulo de ônibus.

 

Uso o serviço tipo leito. De preferência na poltrona isolada que fica do lado direito do ônibus. É um bom serviço. A poltrona espaçosa reclina pra valer, dá pra dormir até bem, quando se está acostumado. Alguns ônibus têm até tomada para se ligar o laptop.

 

Instalado, às vezes usando até o cobertor que oferecem aos passageiros, desfruto momentos de isolamento e paz. Aproveito o tempo e trabalho muito no computador, preparando documentos e apresentações. Nas paradas que o ônibus faz encontro restaurantes e lojas de quinquilharias que dariam um outro livro. O inconveniente é obviamente o tempo de viagem, que dura a noite toda, e chegar com a cara amassada no dia seguinte... Depois, por força dos lugares onde costumo me hospedar e ter meus compromissos, sou obrigado a enfrentar o Metrô de Sampa em horário de pico...

 

De volta aos ares, o embarque em Congonhas é uma história à parte... Sempre apinhado de gente chegando ou partindo, Congonhas é parte do folclore da vida na cidade... Nas minhas décadas como passageiro, vi o prestígio de Congonhas se alternar feito vôo em turbulência... Houve um momento em que se supunha que Congonhas perderia sua importância para Cumbica... Quando ainda uma novidade Cumbica parecia melhor em tudo... Maior, espaços definidos por companhia aérea, várias (duas) alas, e aquelas salas de embarque luxuosas, que lembravam saguões de hotel... No espaço de alguns anos Congonhas voltou com tudo... Próximo ao centro, compacto, reformado e com pelo menos uma parte da área de embarque decentemente equipada. Claro que usar os “fingers”, aqueles corredores que levam diretamente ao interior das aeronaves é algo para poucos sortudos... Na maioria dos vôos embarca-se literalmente pelos portões “de baixo”, pegando aqueles ônibus que nos conduzem até áreas remotas do pátio... Congonhas tem uma limitação quanto ao tamanho das aeronaves, mas isso parece não importar porque os aviões pequenos estão cada vez maiores...

 

E aqui chegamos ao personagem principal dessa história de amor e ódio... Os aviões... Como são belos, fascinantes! Que arrojo, que audácia é o ato de voar!

 

O primeiro avião de carreira em que voei foi um Eletra 2, da Varig. Ponte aérea São Paulo a Rio, jovem e imortal, não tive comedimento em extravasar a minha euforia de passageiro de primeira viagem. Avião propulsionado a turbo hélices, o Eletra 2 foi um herói dos céus em sua época. Naqueles idos de 1983, o serviço de bordo era com comidas quentes, vinhos ou cerveja. Depois daquele foram muitos outros vôos nas aeronaves da época, inclusive os extintos Boeing 727, avião com três motores, todos na cauda, sendo um na coluna do leme. Curioso, pelo menos uma versão do 727 em que voei tinha a “cozinha” bem no centro, ao contrário de na frente e atrás como hoje é.

 

Dos muitos modelos que conheci depois, o que mais admirei e gostei de voar foi o Boeing 767. Enorme, porte da categoria chamada de “wide body”, o 767 tinha fileiras com 2 poltronas de cada lado e 4 poltronas no corredor central. Tela de projeção, dividido em três segmentos e duas classes, sendo a primeira na parte da frente. O 767 em que voei era operado pela extinta companhia chamada Transbrasil.

 

Foi neste avião que fiz a maior parte de um insólito vôo de número 544, entre São Paulo e Manaus... Esse vôo durava inacreditáveis 11 horas... Partindo às 18:00 de São Paulo em um 737, no aeroporto do Galeão, Rio, fazia-se uma conexão onde embarcávamos no 767.  Às 21:00 iniciávamos um trecho de 2h30min até o Recife. Dali, em torno à 01:00h levantávamos vôo novamente até Fortaleza. Depois Fortaleza a Belém. Em Belém, já próximos às 07:00, nova decolagem até Manaus... onde aterrizávamos em torno das 08:00h do dia seguinte!

 

Não posso afirmar com certeza, mas acho que participei com meu filho, então com três anos, do que pode ter sido o último vôo dessa aeronave e um dos últimos da Transbrasil... Partindo de Florianópolis para São Paulo, tentei fotografar meu filho na porta do avião antes da decolagem, mas ele correu lá pra dentro, sob o olhar divertido da Aeromoça. Vôo tranqüilo, avião com muitos assentos vagos (que diferença de hoje em dia!) meu filho se divertiu a bordo, correndo e pulando entre as poltronas... Uma das melhores viagens da minha vida!

 

Iniciando nosso procedimento de descida dessa crônica, relato a viagem belíssima que fiz, retornando de São Paulo a Florianópolis, em 25 de novembro de 2010.

 

 

 

Depois de atravessar uma formação altíssima...

 

Levantamos vôo às 16:30h sob um céu ameaçador, prenunciando a chegada de uma frente fria, empurrada em movimento circular a partir do Centro Oeste, passando por parte do Sul e indo fustigar São Paulo, pelo processo conhecido em meteorologia como “Zona de Convergência do Atlântico Sul”... Já tinha ouvido a previsão na televisão pela manhã, mas fingi ignorar... Aliás, pensando no nome deste fenômeno, o que pode ser pior do que uma “Zona” e ainda “de convergência”?! Seria para onde convergem várias “zonas”?

 

Terminado meu compromisso profissional, fui para Congonhas de táxi... Bate-papo com o motorista, tentando uma descontração... O café no aeroporto não desceu... Meus olhos procuravam e ao mesmo tempo fugiam de ver o céu que ia se tornando mais e mais escuro, com nuvens altíssimas... Ora do embarque, é claro que fomos de ônibus ao pátio... Ao subir as escadas constato que era o último a embarcar... Evitei pensamentos supersticiosos e, fingindo o melhor que pude, procurei impávido meu lugar previamente marcado... Felicidade, era na janela... 

 

“Atenção tripulação, preparar para a partida!” Rolamos lentamente atrás de 3 outras aeronaves que também se dirigiam à cabeceira da pista. As instruções de praxe sobre como apertar os cintos, saídas de emergência e as máscaras de oxigênio... Entre pousos e decolagens posicionamo-nos finalmente para nossa arremetida... Por mais que eu evitasse, a massa de nuvens no céu logo à frente parecia mais densa e baixa do que nunca... Em quase desespero, vendo outro avião decolar, tentei calcular a que altura estariam as nuvens... “Se o avião decola a uns 300 km por hora e se leva uns vinte segundos para desaparecer nas nuvens, então... não, não, está errado! Você não está levando em conta o ângulo de decolagem que é a hipotenusa de um triangulo retângulo que você deve traçar a partir da perpendicular de onde o avião some na nuvem até o chão... “ Tudo muito complicado... mas serviu para me distrair durante os longos segundos entre o alinhamento do avião na pista e a aceleração total dos motores... Soltam-se os freios e, com um solavanco que nos pressiona contra o encosto da poltrona, o avião dispara pela pista... ganha velocidade com ligeiras correções de direção... Vão passando diante da janela o saguão do aeroporto, a torre de comando, as áreas de pátio e hangares e tudo isso quer dizer que o final da pista se aproxima... Então o avião se inclina para cima e deixa o chão... Os motores a plena força, nesta fase do vôo dependemos inteiramente deles... Em acentuada inclinação, iniciamos uma curva para a nossa direita... Na janela São Paulo desfila caótica lá embaixo, número incontável de casas, prédios, ruas... Tudo vai se distanciando até que penetramos a densa camada de nuvens... Minha velha conhecida, a “escuridão branca” se impõe e o avião balança forte... Em vôos tranqüilos a esta altura já seriam apagados os avisos de “apertar cintos”... Entretanto estes continuam acesos... O avião segue fazendo correções de rota, inclinando-se ora à direita, ora à esquerda, as nuvens em volta ora mais brancas, ora mais escuras...

Depois de quase vinte minutos de subida, finalmente passamos acima das nuvens... Descortina-se o azul, mas fica evidente o tamanho pouco usual da massa que atravessamos... Abaixo é possível ver, entre rasgos no que parece ser algodão, a superfície do mar, refletindo raios do sol...

 

 

Tempo bom em rota...

 

“Senhores passageiros, atingimos nossa altitude de cruzeiro, o tempo em rota de agora em diante é bom, prevista apenas alguma turbulência na nossa aproximação ao nosso destino...” Música para os meus ouvidos, a voz do comandante informa que o pior já passou... Tenso ainda, desfruto o cenário épico dessa viagem como poucos que vi... Formações grandiosas, um lindo contraste com um azul profundo e fragmentos da paisagem em terra, lindamente compostos e esparsos... Inicia-se com atraso o serviço de bordo... “Será que vai dar tempo?”, me pergunto... Pouco depois começamos a descida... Ainda estamos sobre o mar, a proa está apontada suavemente para baixo... É possível ver com clareza o contorno de praias, a foz dos rios, barcos pesqueiros, a ondulação e os reflexos na água... É tudo tão lindo que esqueço meus medos... Consigo distinguir com total clareza e desaceleração dos motores e a ação do freio aerodinâmico...

Na aproximação final a Florianópolis, sinal de alerta novamente... Há muitas nuvens e ainda vamos chacoalhar um pouco... Um mergulho no branco novamente e, quando o chão se torna nítido abaixo de nós, estamos sobre a linda baía sul, provavelmente já sobrevoamos a minha casa e fazemos uma graciosa curva para a esquerda, alinhando-nos definitivamente ao eixo da pista do simpático (diria querido) aeroporto Hercílio Luz...

 

Chegando...

 

Mais um pouco e um suave toque na pista, o taxiamento em clima de passeio... Abre-se a porta da aeronave... Cordiais, passageiros e comissários se despedem... (quantos como eu estão aliviados?) Ao pisar na pista uma velha conhecida euforia me invade... Logo ligo para minha esposa... “Cheguei!” É quase um grito de vitória...

Na verdade tudo está bem, a vida segue, logo outros passageiros tomarão seus assentos, outra vez os motores serão forçados ao máximo e novamente o mesmo avião que me trouxe estará onde nasceu para estar: nos céus, acima ou abaixo das nuvens, rumando direto para o seu destino...

Boa viagem a todos!



Escrito por Lárimer Daniel às 13h54
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Manada (ir)manada...

Seguem convulsas torrentes...

Juntos, não têm opção...

Na hora marcada, no dia certo...

Arrastam suaves correntes...

Juntos vem e vão..

Todos ao mesmo tempo...

Porque é preciso fugir...

Mas imperativo voltar...

Ao viajar não esquecem o aqui...

Viajam para dizer que foram...

Muitos... preferiam não ir...

(São Paulo, 08 07 2010)



Escrito por Lárimer Daniel às 21h46
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As quatro horas...

O sol das quatro horas é a luz oblíqua que sinaliza o entardecer em nossas vidas...

 

Na nossa alvorada tateamos a sombra em busca da luz...

 

Nas manhãs de nosso tempo pulsam nossa vontade, nossas ilusões, confundem-se orvalho e lágrimas, chuva e suor...

 

Ao meio dia constatamos a manhã passada mas o começo da tarde ainda preserva uma centelha de esperança...

 

Às três horas aceitamos o cansaço...

 

Às quatro horas contemplamos a noite que se aproxima...

 

E tudo torna ao noturno termo da aventura da nossa consciência...

 

Quando tudo ansiamos... tudo distante nos parece...

 

O que temos geralmente não nos é suficiente...

 

Vivemos em busca do que nos falta e seguimos achando faltas outras... indefinidamente...

 

Os que amamos vêm e vão... sempre mais rápido do que supomos...

 

Demoram-se a estar... apressam-se em não estar...

 

Às quatro horas vemos afinal que quase tudo passou...

 

Nosso dia quase acabou...

 

A noite quase chegou...



Escrito por Lárimer Daniel às 01h01
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Desca[n]so

Ainda não resolvi tudo ... mas hoje não...

Já tenho quase certeza do que está errado...

Vou pensar bastante,mas, não agora...

Vou planejar as ações, vou fazer os cálculos...

Mais tarde...

Quero ver o aqui... quero sentir o chão...

Sofro hipermetropia existencial...

Turva-me a visão o imediato...

O passado é um Promotor...

O futuro uma ameaça...

Me nego todos os dias o sentir o vento...

O mar, o sol, a areia logo ali...

Me nego o mundo à minha volta...

Porque não tenho as respostas... porque não resolvi tudo...

Mas hoje... Ah! Hoje!... eu vou respirar um pouco... só um pouco...

Quem sabe eu encontre um pássaro...

Quem sabe embarque num vôo...

Quem sabe...

 

 



Escrito por Lárimer Daniel às 09h45
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Etéreo Plano...

                                                                                                                                    Foto: Lárimer Daniel - 14/02/2010

Sigo a rota alternativa...

Transito ventos... vácuos... ascendentes...

Para além... ao largo... tateante...

Entreato de monólitos cadentes...

 

Amplos intangíveis horizontes...

Esfero-dinâmica singularidade...

Em termos... destinos confluentes...

Vôo vasto, tempo ímpeto... Etéreo Plano...

 

Luzem-se luzes e nuvens ninfas...

Volteiam-se no céu profundo... ao Sul...

Brilham cristais... Átomos-primas...

Anel energia... vergastando o azul...

 

Solstício halo, luminar leveza...

Hélio astro, nuclear tempestade...

Força luz, holística beleza...

Rastro círculo... coroa majestade...

 

Ignoram minha rota as Estrelas...

Descuidam-se os Sóis dos meus atos...

Não sabem que quero eu, os meus Cometas...

Importa que vôo e vôo... E isso é fato!



Escrito por Lárimer Daniel às 18h44
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[En][Re]torn[e] Ando

Vôo das rodas sobre o asfalto...

Da Cidade concreta e absurda... movimento contido... estática transição

Retorno via bits e bytes ao meu extrato fera....

Ao lado uma doce companhia... à frente um re-encontro ansiado...

Logo mais os limites das linhas paralelas delimitando as possibilidades do olhar...

Doze horas luz de viagem... o que interessa é o que está por vir...

Depois de tudo re encontrar a ternura do mar em teu peito...

Depois de tudo nos re-unir, unir, re-fazer, fazer.

Seguimos, nós dois para os teus braços e...

Para o nosso mundo... Felizes por tê-lo para retornar a ele...

Saudades!

(À bordo do ônibus, de volta pra casa, eu e meu filho Pietro, 21:33h 11/12/2009)



Escrito por Lárimer Daniel às 21h32
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Corre

 

Pára... vem... lá fora se estende a madrugada...

Acalma tua emoção desta luta que não passa...

Fica um pouco mais... dorme... respira...

Aplaca em teu coração essa busca que não cessa...

 

Olha... logo se apagam as estrelas...

E a calma madrugada, nossa amiga,

Se dentro em breve se ascende o novo dia...

Deixará de ser o lar que nos abriga...

 

Aqui agora não precisamos do depois...

Vivamos respiração... cada momento

Façamos de cada gesto uma intenção...

Expulsemos longe esse tormento...

 

Ainda que a luz venha e desperte...

Ainda que a dor latente bata...

Ainda que ferva o sangue, a verve...

Ainda que o amor se encolha e cale...

 

Não sejamos o que nos falta...

Não nos falte o que podemos ser...

Não seja a decepção queda alta...

Só nos fale o que queremos crer...

 

Que, senão, dói demais a jornada...

Senão, não fica a não ser lembrança...

De nós o tudo tornado em nada...

E da vida real... vaga esperança...



Escrito por Lárimer Daniel às 10h57
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Porque passam horas e ventos

 

Porque passam horas e ventos...

Os veleiros brancos da juventude...

A graciosa tormenta que te espera...

Vejo-te agora, tantas mil milhas depois...

De onde o raio e o trovão

Faiscavam sonhos...

E o amanhã... uma brutal sedução...

 

Tudo que parecia redemoinho

Tudo que à vertigem ascendia...

Toda alegria do movimento

Toda delícia da incerteza...

Transmuda-se na letal calmaria...

 

Incontáveis retornos...

Incontáveis esperas...

Os pensamentos em lugar da vida...

Universo paralelo a um milissegundo da existência...

 

Tantas vezes visto passar o veleiro,

Tantas vezes indagado o rumo

Tantas vezes perseguido o prumo

Tantas fugas do estaleiro...

 

Porque passam horas e ventos...

Porque choram vozes e tempos...

Os veleiros rotos da incompletude...

Ao ocaso à majestade,

De gloriosas milhas singradura...

Deixam-se dos portos a procura...

Ancoram-se nas pedras da saudade...



Escrito por Lárimer Daniel às 00h29
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Vento Sul

Surge das águas... ressoa nos tempos...

Ruge acima dos momentos...

Ecoa amplos movimentos...

Mil lamúrias... épicos lamentos...

 

Fundem-se voz e gestos...

Clama desde o ocaso, mar adentro...

Do insondável escuro enseamento...

Traz-as-ilhas, fronte ao barlavento...

 

Ruidosa, interminável alcatéia...

No espaço escuro das noites interiores...

Pontilha luz... ciclópica bateia...

Uivos sem-fim de lobos predadores...

 

Impõe-se sobre tudo... tudo verga...

Castiga costa, convicção e julgamento...

Transpassa o trivial e o monumento...

Espraia-se por tudo e tudo traga...

 

Chuva horizontal, águas sibilantes...

Trovões e ecos abismais...

Fulgor, espectros flamejantes...

Temores... instintos animais...

 

Giro turbilhão, gigante impulso...

Chamado Vento Sul, traço cultural...

Chamam-me hoje, tempo convulso...

Ciclone Extra-Tropical...



Escrito por Lárimer Daniel às 00h33
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Lembrança tardia...

Logo agora que sabíamos que estávamos chegando em algum lugar...

Logo agora que eu sabia tudo que eu tinha que fazer...

Agora que a inspiração me trouxe as respostas que eu não via...

Agora que a luz se insinuava por trás das jenelas fechadas da minha culpa...

Agora que a verdade brilhava por dentro das janelas fachadas dos meus olhos...

Agora que a serenidade acalmava as volúpias dos meus desejos...

Agora que poderíamos andar de mãos dadas pelas areias...

Afinal... por que tem que ser agora? ...



Escrito por Lárimer Daniel às 11h43
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Conversa no escuro...

"Ô pai... fica mais um pouco..."

Vão passando as 23:00h... Tarde para ontem... o amanhã espreita... Tarefas, fazeres, lutas... tudo ali, logo depois da lua alta no céu, em algum céu acima de nossas cabeças...

Como todas as noites ele quer conversar um pouco mais... Deito-me ao seu lado, olhos abertos no escuro... Uma tímida felicidade me aquece... apenas por que minha presença lhe traz algum conforto, tem alguma importância para ele... faz-me companhia do seu iminente adormecer... Mas antes, vamos falar um pouco mais....

Quando ele está inspirado começamos com o Big Bang... "Pai, como pode alguma coisa começar do nada?" Essa é difícil... "Nem Stephen nem Einstein, Pietro... "

De outras vezes é mais prosaico... "Pai, quanto é infinito dividido por infinito?"...

Tratamos de tudo, naquele recanto... no aconchego do seu mundo, rodeados por um redemoinho de brinquedos, roupas, tarefas e material escolar... Preparo sua cama para que se deite entre os gritos da mãe para que escovemos os dentes... Dormimos tarde, falamos baixinho e sempre rimos de alguma bobagem, lembramos algum desenho animado ou filme...

Nos seus onze anos, tudo tão urgente e gratuito ainda... as primeiras emoções próprias, as primeiras leituras originais da vida... as primeiras singelas desilusões...

Constato a solidez do meu amor por ele através da minha completa disponibilidade, da minha prontidão em atendê-lo, da minha compulsão por ser-lhe útil, por resguardá-lo e protegê-lo...

E assim seguimos, pelas noites dos dias cansativos, sempre abraçando-nos ao nos despedir e ele sempre pedindo..."Fica um pouco mais..."

Tenho tanto a fazer... consulto o relógio, o computador, a agenda, o calendário, o almanaque, o dicionário, a enciclopédia, o coração...

"Tá bom, Pi... mas só um pouco... do que vamos falar?"



Escrito por Lárimer Daniel às 02h27
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