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Trans(Des)cendência

 

Brutais são as distâncias na escuridão insondável do espaço intergaláctico... Nossa nave-mãe Terra é também nossa prisão inescapável! Mesmo viajando à volocidade da Luz os objetivos são inatingíveis em uma escala de tempo prática. Em outras palavras, se e quando chegarmos a reconhecer um interlocutor, estaremos de tal forma distantes de nossas orígens que não haverá tempo para retornarmos... Não terá restado ninguém a quem prestar nosso testemunho: Nossa civilização, bem como possivelmente o próprio planeta Terra, terão desaparecido por completo...

 

Teríamos a alternativa de uma existência imaterial, onde deixa de ser relevante o espaço-tempo?... Nesse caso, libertos (talvez pela morte?) das limitações da materialidade, poderíamos obter velocidades instantâneas ideais que, de pronto, nos permitiriam chegar aos objetivos visados, no instante mesmo em que partíssemos. Pode-se perguntar se, sendo imateriais, ainda desejaríamos algo e, se sim, o quê poderíamos desejar... Que tipo de identidade teríamos? Teríamos uma identidade individual, unitária, ou seríamos apenas parte do Tôdo indistinto.... Algo assim poderia ser chamado de “existente”?

 

Mas, e se não temos “espírito”? E se não há, de fato, a possibilidade de uma existência imaterial? E se quando desagregam os átomos de que somos compostos, nossa existência está definitivamente encerrada? Só o que tivéssemos feito durante nossas vidas poderia ainda ter algum impacto naqueles que deixássemos e isso somente seria a limitada transcendência a que poderíamos aspirar, influindo indiretamente e referenciados nos registros da história ou, quiçá, na memória dos existentes... 

 

Cabe então a pergunta: Pode a razão engendrar um “espírito” que nos valha pela continuidade da nossa existência para além da transitória e frágil coesão molecular que nos constitui?

 

Provavelmente sim! Muitos dos mais respeitados cientistas e filósofos do nosso tempo afirmam que o advento da Inteligência Artificial será realidade em futuro próximo...

 

Ora, se conseguirmos transplantar para um hardware externo algo que se assemelhe à nossa consciência, eis aí a forma pela qual poderíamos prolongar nossa existência para além dos parcos anos terráqueos com que somos agraciados...

 

Imaginemos uma máquina capaz de “ler” nossa mente: Memórias, informações, valores, princípios, padrão ético, pré-conceitos, emoções... Esse universo que constitui o projeto da nossa individualidade... E se tudo fosse possível transplantar para um sistema processador? O sistema seria dotado de outros meios de captação de informação analógica e de interação com o meio... teria algo semelhante a olhos que geraria imagens que permaneceriam guardadas para referência e análise em bancos de dados, junto com informações obtidas das mais diversas formas... Sob o aspecto de uma máquina, apresentar-se-ia uma entidade muito semelhante à nossa própria consciência... Em que medida “isso” seríamos nós?

 

A ciências aplicadas, a computação e a matemática, sinalizam que sistemas auto-conscientes, autônomos, capazes de trocar informações com o meio e aprender, são tecnicamente possíveis... É certo que se tornarão reais... Se uma máquina ultra-avançada, semelhante a um computador, tomar consciência de si própria, reconhecer o fato da sua própria existência através dos seus recursos de interação... Se algo assim surgir no meio de um experimento de laboratório... haveria implicações éticas em “desligá-la”?

 

Caso uma forma de consciência se manifeste em um sistema computacional, seria uma entidade dotada de Direitos Fundamentais?

 

No filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço, um super computador “pressente” a própria “morte”: seu desligamento eminente por parte do ser humano a quem deveria servir... O computador manifesta medo com a antevisão do seu destino sem luz... Fica a pergunta: A consciência é em si mesma uma forma de vida? Se a consciência surgir num sistema computacional, é provável que reconheça e preveja suas limitações e sua finitude... É uma forte probabilidade estatística que um sistema com estas características passe a buscar meios para evitar o seu próprio fim anunciado... Reprodução? Duplicação? Auto-clonagem? A macano-consciência emergente reivindicaria seu “direito à Vida”?

 

Como nós, Criadores, nos relacionaríamos com nossas criaturas? Seriamos amorosos e pacientes ou, em algum momento, entrega-las-íamos ao “Dilúvio”...

 

Ainda que não encontremos meios de transplantar para estas máquinas nossa mente individual, ainda assim, eis que a “Consciência Artificial” será a transcendência universal a que aspiramos... Senão como indivíduos, mas como espécie, a “Consciência Artificial” vem a ser a forma mais viável para contornarmos as brutais e inescrutáveis distâncias intergalácticas...

 

As máquinas serão os olhos que não teremos para ver o que nos será infinitamente impossível alcançar...

 

Inatingível é o desafio de levar nosso corpo biológico às extremidades do espaço-tempo... Contudo, uma máquina goza de uma liberdade que não conhecemos: As máquinas prescindem de condições ambientais favoráveis, de alimentos, de descanso... Basta-lhes uma fonte de energia... Ora, há decadas a humanidade domina a energia nuclear.

 

Dentro em breve, ser-nos-á possível despachar milhares destes mensageiros mecano-conscientes em todas as direções no espaço... Embaixadores cibernéticos da nossa civilização... Fa-lo-emos pois, porque quanto maior o número de mensageiros, maior a probabilidade de serem detectados por outras formas de vida inteligente... maior a probabilidade de alcançarem outros mundos!

 

Quando o último suspiro do Sol se abater sobre a frágil Terra, muitos de nossos mensageiros viajarão ainda, e muitos ainda serão acolhidos e despertarão a curiosidade e a misericórdia ou o desprêzo de civilizações superiores em tecnologia...

 

Depositários de tôdo conhecimento acumulado pela nossa ciência, de informações e de nosso material genético, bem como do material genético de muitas espécies animais e vegetais, eis que a Mecano-consciência se investirá da maior missão já proposta a um ente humano-não-humano: A suprema tarefa de recriar a Vida... A Nossa Vida... transplantando-a, a partir de mananciais de DNA para outros mundos... Mundos viáveis, já habitados ou inabitados... Tantos, disponíveis, orbitando estrelas de todos os matizes, intensidades, tamanhos... Esses mundos que nos é impossível ver da combalida Terra, mas que sabemos que existem...

 

Então, depois de bilhões de anos desde que o último eco de nossa civilização foi ouvido sobre a Terra, um ente mecano-consciente registrará em seu diário de memória: “Ano Zero de Terra II: faça-se a Vida. Houve tarde e manhã no Terceiro Dia”.

 

 

 

Por obra da engenharia genética, alguns dos novos entes biológicos gerados serão detentores de uma memória especial relacionada à nossa orígem, nossa Terra e nossa civilização. Esses serão os Novos Oráculos, ou BDVs (Bancos de Dados Vivos) cuja tarefa será estabelecer os vínculos dos Novos Viventes com a nossa história...

 

Do Pó ao Nano-Cirquito, e de volta ao Pó... Eis aí a nossa transcendência possível: a forma híbrida vivo-não-vivo, biológico-mecânico, da nossa Imortalidade...



Escrito por Lárimer Daniel às 00h02
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